H Gasolim Ultramarino |
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14.12.04 Memória das coisas - 28 de Fevereiro de 1969 Afinal, a minha memória não me traiu. O meu olhar dos dez anos não ampliou as dimensões, como admiti no post anterior. Encontrei fotografias da época. Nas páginas do Centro de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e nas da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica. 13.12.04 O sismo das 14:18* Não sei quantos sismos já senti. Já lhes perdi a conta. A este senti-o bem. E como das outras vezes, a mesma sensação de impotência. Talvez que um sismo com maior duração permita algum tipo de reacção. O de Fevereiro de 1969 durou o bastante para isso. Mas como acordei mais com o ruído de janelas a bater do que com a vibração, só percebi que não era vento quando já tudo acalmara. Foi nessa altura que pude ver, pela primeira vez e única até hoje, ao vivo, a destruição associada a estes fenómenos. Poucos dias depois, passava por Bensafrim e recordo-me da quantidade de casas que estavam parcialmente derruídas. Terei ampliado em demasia os estragos? Com aqueles olhos infantis que tudo sobreavaliam? Não sei. A verdade é que nunca me entreguei a essa pesquisa. A julgar pela forma como foram tratadas as inundações de 1967 na imprensa e a forte controvérsia que sempre existiu sobre o seu balanço final, é provável que também não chegasse a nenhuma conclusão. Mas é nestas alturas que sobreleva a impotência dos homens. No nosso caso particular, não é a só a impotência. É também uma certa ignorância dos riscos. A verdade é que todos sabemos que vivemos numa zona de alto risco. Mas ao mesmo tempo, a Natureza tem-nos poupado. Por alguma razão que desconhecemos, há muito que não nos confrontamos com um terramoto de grandes dimensões. Coisa relativamente comum em séculos anteriores. Toda essa ignorância, esse alheamento, tem conduzido a um descaso nada próprio de zonas de risco sísmico. Pode dizer-se, sem grande risco de erro, que quando acontecer, terá graves consequências. Só os crédulos pensarão que grande parte das estruturas onde nos amontoamos, resistirão sem danos maiores a um abalo mais forte. Uma das curiosidades destas alturas é, como não podia deixar de ser, o chorrilho de disparates difundido. Desde a não confirmação oficial (?) até às tentativas de lançar o pânico, através de insistentes e capciosas perguntas a especialistas, tudo se ouve. O bom senso, qué dele? *no meu relógio
imagem do IM 12.12.04 A novidade E os shortcuts? Já viste? Mas isso têm todos. Eh pá, dá um jeitão. Olha aqui o 112. Carregas no 1 duas vezes, no 2, no cardinal e já está. Realmente... podias ter posto no 111, sempre variavas. Ou no 115, à moda antiga. Restos de colecção (9)
in Vasco Callixto, "Fala a Velha Guarda - subsídios para a história do Automobilismo em Portugal", 1º vol., Lisboa, 1962 O Código de Belém No passado dia 19 de Outubro, quando foi apresentada a proposta de Orçamento de Estado para 2005, supus e bem, que algo de secreto se encontraria nas entrelinhas do texto. Inspirado por um post de Rafael Reinehr, segui as pisadas dos decifradores do código da Bíblia e lá encontrei o que toda a gente sabia que existia, mas não tinha coragem de procurar. Ganha agora particular relevo este segredo. Uma vez que é dissoluta a Assembleia, demissionário o Governo, MAS aprovado o Orçamento. Assim sendo, procurei, pelo mesmo método, descodificar o discurso do Presidente da República e o do Primeiro-Ministro demissionário. Não tendo o portal do Governo o conteúdo da comunicação de ontem do Primeiro-Ministro, aqui fica à vossa apreciação, o discurso do Presidente da República, matriciado a 64 colunas (passo 64). Na falta de tempo, deixo ao vosso cuidado a busca das palavras nele escondidas. 11.12.04 10.12.04 Talvez seja novidade Talvez seja novidade. De entre as tantas coisas que se apregoam como novas e que de novas nada têm. Mas esta talvez o seja. Mas não é uma novidade muito nova. Simplesmente a cada dia se nota mais. Até há duzentos anos atrás, na nossa civilização, as vozes e os ouvidos eram pertença de muito poucos. A alfabetização, a imprensa, a rádio e a televisão contribuíram para o que número de vozes e de ouvidos se alargasse. A proporção é hoje muito diferente. Parece óbvio que falar para um número reduzido de ouvidos, mais ou menos habituados a isso, é muito diferente de falar para uma massa, pouco habituada a falar e a ouvir. O nível da argumentação baixou. O nível dos objectos dessa preocupação baixou - a quantidade de pessoas que argumenta sobre se uma bola entrou ou não, é impressionante. Não me preocupa tanto o facto de haver muita gente a discutir futebol. Suponho que até é útil que assim seja. Mais me preocupa que o nível geral da argumentação tenha baixado para níveis quase risíveis. Que o facto de ter tantos ouvidos à escuta, conduza os argumentos para o arrazoado infantil. E que sobre esse tipo de argumentação se construam depois as réplicas e as tréplicas. Talvez que as outras vozes falem entre si. Ao ouvido. Mas fazem falta. Assim haja também ouvidos capazes de perceber o que dizem. 9.12.04 Dezembro O Natal existiu. Claro que existiu. Existiu em presépios com rebanhos de louça, musgo em pacotes, pontes romanas, castelos inverosímeis, fontes sem água, tudo em escalas diversas, como se alguém tivesse o divino poder de baralhar as perspectivas. Mas ficou-se. Ficou-se lá para lá trás, ao pé da cadeira junto ao lume, onde se amontoavam caixas de Lego, carros da Corgi, chocolates Regina, lápis Viarco, livros das Mil e Uma Noites. Ficou-se por aí, sem dizer quando. Ficou-se no frio barbeiro, nos alguidares de gelo no quintal, no madeiro que haveria de arder até ao Ano Novo, nos bolos feitos no forno da padaria, nas samarras, nos capotes pendurados na entrada. Ficou-se no cheiro das carnes misturadas com fumo em todas as terras de passagem. Ficou-se no azul forte do céu que inundava o monte, entre cães e gatos. Ficou-se na pele fria do assento do carro, nas madrugadas em que se transpunha o Caldeirão. Ficou-se em notas de quinhentos daquelas de chapa 9 cujo número de série tinha que ser verificado. Ficou-se nos discos novos que se ouviam do outro lado da casa, em altos berros. Ficou-se nos bolsos cheios de bombons. Ficou-se entre quatro paredes. A sul. ![]() 8.12.04 Efeméride
Um quarto de século depois de ter escapado de boa, década e lustro depois de outra provação, neste preciso dia 8, comemoro-me. Não faço anos. Outras vidas Sou um rústico em muitas coisas. Urbanidade alguma, q.b.. De entre as características que me entraram nos genes ou que absorvi do habitat, há este fascínio pelas árvores, embora pouco ilustrado. As saudades que sinto de dada oliveira, multicentenária na certa, que um dia soube cortada por ameaça à estabilidade de uma construção. Por mim, teria estabelecido um compromisso entre as casas, também mais do que centenárias, e a árvore. Talvez sem sucesso. Pouco importa agora, que nem umas nem outra se encontram de pé. Saudades de certa romãzeira, que morreu de morte natural. De um pomar inteiro que soçobrou ao abandono. Lá estão as figueiras da orla como testemunhas resistentes de outros tempos. Saudades de árvores das quais não sei o destino. O meu limoeiro, a minha nogueira, as nespereiras, as ameixeiras, as figueiras também. Desse quintal que suponho ainda existe. Mas há uma árvore que hoje merece o meu afecto. Não é muito velha, não pode ser. É um eucalipto solitário, no meio dos sobreiros. Talvez que se interrogue o que está ali a fazer, a olhar de cima o pachorrento montado, cada vez mais de cima. Está perto da casa. Se um dia um golpe de nortada o atirar ao chão, é certo que derruba a tenda. Espero não chegar ao ponto de ter que lhe dar um destino. Não sei nada destas árvores. Lembro-me daquele que havia (ainda lá estará?) junto à antiga E.N. 261-3, entre Santiago e Sines e que era de um porte impressionante. O meu para lá caminha. Vê-se ao longe, de muito sítio. Espero que lá fique, quando eu me fôr embora. É curioso que não consiga encontrar informação sobre o tempo de vida desta espécie. Tudo o que se encontra é informação sobre as idades de corte, espécie de crescimento rápido, blá, blá, blá... Ainda assim, descobri agora uma página onde me dizem que pode viver mais de cem anos. Claro que pode. Ora essa. 7.12.04 A história do meu vizinho Dava mesmo um filme. Cruzámo-nos uns bons trinta e tal anos, desde que apareci por cá, até que ele desistiu. Nunca se lhe conheceu família, sequer amigos. E se a vizinhança era velha, escrutinadora. Uns diziam-no médico, dada a sua predilecção pelo vocabulário anatómico, patológico e simposial. Outros génio louco. Sendo que, se todos temos um pouco duma coisa e de outra, ele teria a mais das duas. Não perturbava a existência dos demais. Se os outros perturbavam a dele, nunca se soube. Por vezes, destinava longos solilóquios a vizinhos mais próximos, quase sempre entre a ironia, o afecto e o desconcerto. À porta do prédio, enquanto desenhava figuras no ar com a chave. Sabia-se que os mesmos vizinhos lhe cuidavam da casa. Talvez apenas quando ele consentia que o fizessem. Um dos sinais mais violentos da sua existência foi a defenestração de um saco de lavandaria, repleto de maços de tabaco vazios. Relíquias já fora do mercado. Certa vez, desfez-se das mobílias. Vimo-lo radiante - assim parecia - sentado na camioneta, ao lado dos homens que a carregaram. Solicitado, dava longas aulas de história e geografia. Monarcas russos confundiam-se então com pinguins da Antártida, médicos portugueses com políticas americanas, produtos alimentares com compêndios de álgebra, peixes da nossa costa com sistemas de comunicação. Gostava de comboios em verde, de poliglotas, de casas em tons de caranguejo. Usava luvas e gabardine todo o ano. E uma noite, desistiu. Restos de colecção (7) Enquanto decorrem os trabalhos de arrumação do espólio, enquanto o tempo e a disposição não permitem mais uns disparates em forma de texto, aqui se mostram duas fotomontagens de poucos conhecidas:
in Ponte da Arrábida sobre o rio Douro e seus acessos, MOP - JAE, 1963 6.12.04 Restos de colecção (5) Os mapas, as cartas, perseguem-me. Poderia fechar-me, como a personagem de Marquez, num quarto com mapas. Dispensando os instrumentos de navegação. De dentro de livros, saem as mais estranhas indicações. ![]() Restos de colecção (4)
Ancoragem sul da Ponte sobre o Tejo foto do Magazine da Morrison-Knudsen Company, Inc., Novembro de 1964 Agradecimento O autor destas linhas agradece o destaque e a recomendação a "A Minha Rica Casinha". E retribui, sem que o faça apenas por cortesia. Vale a pena ser visita dessa casa. 5.12.04 Falemos de rosas, ou de fadas
Uma dedicatória Esta imagem resulta da combinação de outras encontradas na rede e que não me pertencem. Por serem muitas, abstenho-me de as nomear 4.12.04 Restos de colecção (3)
Fico a saber que foi em Janeiro de 1987 que as minhas preferências se viraram para a tinta castanha da Parker. Uma mancha azul no meio do castanho - um nome feminino, completo, ao lado de um desenho que não se interpreta bem, devia ter se destacado em devido tempo. A injustiça do mundo é assim mesmo - sonhos que se tornam realidade e disso não nos apercebemos senão tarde de mais. Ou será que estou a ver tudo com olhos nostálgicos e a imaginar mensagens que nunca existiram? Mas por que raio o nome aparece primeiro sozinho e depois se repete com todas as letras, nomes próprios e apelidos num caderno meu? E por que é que não tinha dado por isso antes? E aquele desenho é um esquisso de quê? De uma infiltração de um líquido? |
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